quarta-feira, abril 16, 2008

Uma lista

O - que as pessoas insistem em chamar de PD, mas não eu - me indicou pra seguir com uma corrente. Ok, ok, eu vou parar de fazer de conta que odeio correntes. SIM, vocês ouviram direito, o mundo não vai acabar por isso: fazer listas é uma mania minha. Paciência, né? Nerdice é foda.

Anyway. A lista dessa vez é sobre coisas que eu quero fazer antes de morrer. Certo, eu faço, embora tenha que pensar um pouco. Ocorreu-me agora que uma lista igualmente factível é de coisas que eu queria ser quando crescesse, principalmente se isso fosse amanhã...

A lista: Coisas pra fazer antes de morrer

1. Aprender a dançar tango.
2. Conseguir instalar a porra do adsense e ganhar dinheiro com ele.
3. Descobrir o que eu quero ser quando crescer.
4. Saber quem foi o anônimo sem senso de humor que postou no "mais conversa insólita".
5. Saber como essa mulher enfiou esse lenço tão rápido.
6. Dividir a vida com alguém que valha a pena.
7. Recuperar dona Nayra.
8. Fazer a Dehynha ter tempo de colocar o tarô pra mim.
9. Jogar uma bomba em todas as instalações do Detran e matar todos aqueles funcionários corruptos, viciados, mal comidos e asquerosos.
10. Viajar. Muito. E ver coisa pra caralho.

Ok, são dez. Outra mania que eu tenho: números redondos. Se bem que eu posso fazer mais cinco listas dessa sem repetir nenhum item. Ta, não farei isso, poupo meus pobres leitores.

Assim, indico os próximos a fazerem lista:
  • a Dehynha no Quatro Peitos, porque ela ainda não postou lá.
  • o Balconista, porque ele ainda vai admitir que é nerd.
  • a Carlinha, porque ela é ótima de listas.
  • o Eric, porque ele sempre lembra de mim nessas coisas, eu sempre lembro dele. Óun.
  • a Lilhoca, porque ela tem as melhores respostas.
  • o Outsider, pra ver se ele volta a postar, que ta fazendo falta.
  • a Camila, que é leitora fiel e eu quero muito saber mais dela.

terça-feira, abril 15, 2008

Dor

A Nayra foi embora hoje.
E eu to tentando arrumar coragem pra ir também.

E agora?

Às vezes as dificuldades se avolumam e se acumulam tanto, que a gente afunda, se perde, desiste. Às vezes a gente pensa se é bom o suficiente pra enfrentar algumas coisas de peito aberto. E nessas horas dá um frio, uma vontade de se esconder sob a cama, de cobrir os olhos pra ver se as coisas vão embora que nem as sombras quando o sol nasce.

Eu não sei o que fazer. Eu só sei que preciso fazer. E que to com um medo danado.

quinta-feira, abril 10, 2008

Mais conversa insólita

- Aí, ele teve a capacidade de me dizer que eu não entendia nada daquele assunto.
- O QUÊÊÊÊ???
- Pois, é.
- Ah, pára a palhaçada, né?
- Ô! O cúmulo da audácia.
- Amiga, pára tudo vai. Assim não pode! Se tem uma coisa que não dá pra aceitar é homem subestimando a nossa inteligência!
- Exatamente.
- Pode chamar de feia, de gordinha, de maltratada, mas NÃO subestima a nossa inteligência, caralho!
- Er...gordinha pode?
- ALOW?? Vamos manter o foco, por favor???

terça-feira, abril 08, 2008

Teoria

Ele costumava dizer que ela era um amontoado de mulheres numa só e que sempre se surpreendia, porque a interlocutora nunca era quem ele achava que seria. Ela se divertia com essa teoria, mas também nunca achava graça do mesmo jeito. Até o riso variava de tom, o que só corroborava a idéia dele.

E empregava muito tempo em observações, metódico que era. Chegou mesmo a apelidar as diversas facetas dela. "A diaba". "A chorona". "A palhaça". "Aquela que almoçou comigo ontem". Ela protestava, fazendo troça. Mas não havia quem pudesse com ele quando o assunto era a argumentação apaixonada e até ela mesma acabou se convencendo.

Ele se divertia provocando as oscilações dela e surpreendeu-se ao constatar que também se transformava. Mudava os olhos, a voz, o cheiro, o toque. Mudava o humor, o sorriso, o ritmo. Mais que isso, descobriu-se menos pragmático e mais impulsivo, como nunca havia sido.

E em meio a tantas descobertas, perceberam que, por mais que variassem, havia, no entanto, uma constante: encaixavam direitinho um nas esquisitices do outro.

domingo, abril 06, 2008

Comédia Romântica

Ele arrancou com o carro imprimindo nele a força que emanava de si mesmo. O motor potente rugiu e se afastou rapidamente, enquanto ela olhava, parada na calçada com o coração se sacudindo no peito, sentindo um travo na garganta. Como sentiria a falta dele! Viu o carro parar no sinal, fechado. Murmurou uma prece ininteligível. Que os deuses e todos os anjos tomassem conta dele no caminho de volta.

Uma fração de segundo depois, observou espantada o carro dar ré em alta velocidade, vindo em sua direção. Ele brecou bruscamente e ela adiantou-se, abrindo a porta.

- Esqueceu alguma coisa?
- Esqueci. Me dá mais um beijo!

Ela riu e saltou sobre o banco. Ele veio ávido, todo lábios e calor. Entremeou os dedos nos cabelos dela num carinho rápido, no ritmo da língua. Misturaram as respirações e se olharam por um momento imenso. Sorriram, cúmplices.

- Tchau, meu amor.

O carro arrancou de novo, ela continuou na calçada. Mas dessa vez, nem mesmo a agonia da despedida impediu-a de rir. Ele sempre se superava.

Ele dobrou a esquina, sumindo de vista. Ela fechou os olhos ligeiramente e abanou a cabeça, sem deixar de sorrir. A música tema, que até então fazia apenas fundo pra cena, aumentou e se sobrepôs ao barulho do trânsito. Ela abriu o portão e entrou em casa. Subiram os créditos. E fim.

terça-feira, abril 01, 2008

Conversas Insólitas sei lá que número

- Que ótimo! Comecei o dia no engarrafamento.
- Comecei o dia espremida num elevador cheio de homem. Quer trocar?
- Ué, tem algum bonito? Hoje eu to facinho...
- Que nada, só barango.
- Hoje eu to tão facinho que poderia te chamar pra namorar comigo.
- Ih, ta facinho mesmo. Mais que isso só eu, que aceitaria no ato.
- ...
- ...
- Quer namorar comigo?
- Hoje é primeiro de abril, né?
- É. Mas a pergunta ta valendo.
- Sério?
- Sério.
- Cadê o Sérgio Malandro?
- Saiu, você quer namorar com ele?
- Não, serve você mesmo.
- Ótimo. Agora eu vou desligar antes que eu bata o carro, tá?
- Tá.
- tu tu tu tu...

Marca D'água

Ela pensou em pendurar uma placa. Escrita em neon vermelho, piscando que nem aquelas antigas propagandas de cigarro. Puxa, isso tinha sido há muito tempo, parecia outra vida. E pensar nessa comparação fazia-a se sentir um pouco velha. Não, velha não. Defasada? Retrógrada? Não. Saudosista. Sim, de fato.

Aliás, ela era assim. Valorizava detalhes, gestos simples, pequenos-grandes significados. Sentia saudade de xícaras de café e sorrisos compartilhados no fim da tarde, lembrava-se comovida de um trecho de livro que lhe tinha sido mostrado, guardava com carinho confidências, histórias e até mesmo piadas bobas.

Gostava de ser assim. Ainda que alguns a julgassem tola, por vezes, era assim que ela sabia sentir as coisas. Pra ela, alguém que tinha um dia sido importante não deixava de sê-lo da noite pro dia, como se apagado pelo pressionar de um botão. Ainda que a vida seguisse seu curso e novos acontecimentos trouxessem sentimentos renovados, a marca das experiências passadas continuava presente, lembrando-a de tudo que já tinha aprendido e incitando-a a fazer direito dessa vez.

E quando se faziam presentes a alegria e a emoção provocadas pelas mudanças, a vontade que tinha era de rir alto e contar pra quem quisesse ouvir. Mais que isso, a vontade era prestar um tributo. E por isso pensou na placa. Penduraria uma, gigantesca, com letreiro em neon vermelho qual o das antigas propagandas de cigarro. E poria nela tudo quanto queria bradar ao mundo, tudo o que lhe supitava pelos olhos e pelos poros, tudo o que fazia brotar aquele sorriso irritante que a acompanhava até mesmo quando caminhava pela rua.

Mas, outra característica marcante da sua personalidade era a sutileza, que, aliada ao gosto pelos pequenos detalhes, a fez mudar de idéia. Em vez da placa, faria uma marca dágua. Discreta, suave, por vezes até mesmo imperceptível. Mas indelével e sempre presente. Que nem o raio do sorriso.

domingo, março 30, 2008

Tormenta

Aquele foi um final de semana de lascar, ainda não se acredita na enormidade da tempestade que caiu. A velocidade atingida pelos ventos deixou a todos assombrados e o que se conta é que não sobrou um varal de roupas intacto pra contar história e que algumas casas viram suas telhas irem pelos ares, rodopiando entre lençóis coarados e panos de prato com estampa de frutas. As galinhas foram recolhidas às pressas e se salvaram, a maioria passa bem. Algumas crianças, no entanto, com a temeridade que lhes é peculiar, ainda quiseram aproveitar a ventania pra colocar pipas coloridas no ar e soube-se que estão de castigo ajoelhadas no milho até agora, que é pra "aprender a não matar a mãe de susto".

A tempestade começou na sexta feira à tardinha, antes mesmo do comércio baixar as portas. No início era apenas garoa mansa que foi cobrindo cada superfície exposta com gotículas de água gelada. No céu, viam-se nuvens cinzentas e opressivas, como se fossem uma preocupação instalada. Daquelas que latejam o dia inteiro no sombrolho franzido, que não são urgentes, mas que não desaparecem enquanto o problema não é solucionado. No máximo dão uma ou outra trégua.

Quando as piores tomentas se aproximam, pensa-se que o tempo não pode ficar pior do que aquele ar abafado comprimido sob o céu cinza-preocupação-instalada e aguçado pela brisa enregelante-de-arrepiar-a-espinha. Mas fica. A mudança acontece de um jeito lento, como caminhar dentro d'água, como a solução pra preocupação-instalada-opressiva apontando no horizonte, feito nuvem de poeira que os olhos céticos bombardeiam racional e metodicamente pra garantir que não se trata de miragem. E quando concluem que é real, a tormenta é iminente, e mal há tempo pra correr. Foi o que aconteceu daquela vez.

A água, precedida pelo vento, veio qual se fosse despejada sobre o solo para lavar alguma sujeira pegajosa ou matar afogado quem ou o que se encontrasse no caminho e não fosse rápido o suficiente na fuga. Certamente carregou com ela alguns pobres seres incautos, faça-se por eles um minuto de silêncio respeitoso-que-deus-os-tenha. Mas celebre-se, com igual deferência e ainda maior comoção, a notável força renovadora contida na enchente e na tempestade, que passam arrastando os cacos inúteis do passado e instilando vida às terras áridas como se jorrassem com poder curativo sobre feridas purulentas e mal cicatrizadas incrustadas no solo.

Açoitadas pela chuva e pelo vento, as noites foram árduas. Luzes cortavam o céu e estrondos reboavam incessantes, assustando até os mais destemidos e interrompendo o sono dos inocentes, que acordaram sobressaltados e fitaram o teto vazio por muito tempo, incapazes de conciliar novamente o sono, aterrados com os raios e com o furor da chuva.

Os dias, por sua vez, foram os mais longos possíveis. As crianças presas em casa, os cachorros amuados sob as camas, a antena da televisão produzindo apenas estática, os telefones mudos. Os pensamentos perderam-se entre rezas pra que o telhado aguentasse e a água não invadisse a sala, e a inquietação sobre a sorte daquele ente querido que a chuva surpreendera lá fora e ainda não tinha dado notícias.

Pensou-se que a chuva não pararia mais e que estava tudo perdido.

"Oh, senhor, não nos abandoneis neste momento!" - foi a litania repetida, incansavelmente.

E então, no terceiro dia, a chuva finalmente cessou. A ausência do ressoar dos pingos no telhado e a visão dos tímidos raios de sol que surgiam aquecendo e carregando consigo um facho de esperança causou emoção incontida. A casa tinha resistido, o filho estava a salvo, o sofá permanecia intocado pela água e até o lençol branco jazia no quintal, enxovalhado, mas nada que sabão e sol na dose certa não resolvessem. Até mesmo aquele exilado do outro lado da poça tinha dado notícias. Tinha passado as noites em claro, estava abatido e faminto, mas vivo e são.

E o sol, depois de se insinuar delicado por algumas horas, criou coragem e tomou tudo, se espalhando radiante sobre todas as coisas e em todas as frestas, como se comemorasse a chance de fazer o novo viscejar no lugar dos escombros que haviam sido arrastados pra longe. O calor reluzente em contato com a água empoçada, tornou o ar úmido e quente, daqueles que envolvem, fazem suar o couro cabeludo e os olhos embaçarem.

Neste momento, uma menina de tranças escuras está sentada ali adiante sob o sol, sorrindo enquanto contempla as nuvens que dançam balé, ora em forma de tigre, ora de dragão. E, embora ela saiba que a garoa deve voltar nos próximos dias, ouviu a previsão do tempo dizer: o próximo final de semana será quente e ensolarado. E essa certeza é suficiente pra deixá-la feliz.

sexta-feira, março 28, 2008

Lívia's Anatomy

Amanhã faz dois meses que eu só trabalho, ininterruptamente. Bah, grande coisa, dois meses! - alguém dirá. - E eu que trabalho a vida inteira? Eu direi: por que você não morre e vai atormentar outra pessoa bem longe daqui, hein?

Meu, eu trabalho desde os dezessete anos. Já fui vendedora de cosméticos, de roupas, de lingerie, já fui Oficial de Justiça, já fui estagiária, agora sou advogada. E quem me conhece e me lê há mais tempo, sabe que a minha peleja com o Direito é longa e que nunca achei que iria abraçar a coisa como de fato fiz.

Na verdade, eu já tinha desistido dessa coisa, quando me chamaram pra fazer entrevista nesse escritório. Fui aprovada, meti a cara e acabei descobrindo que eu sou boa nisso. Muito boa, aliás. Então as coisas têm caminhado muito bem, eu realmente gosto do trabalho e do pessoal daqui.

O complicado é que este não é um trabalho regular. Tem hora pra entrar, mas nunca pra sair. Não tem fim de semana - se o prazo vence na segunda, nega, o jeito é sair na sexta feira carregando trabalho pra fazer em casa sábado e domingo. Não tem sequer noite de sono tranquila. Cara, é sério. Quando eu era vendedora na Levi's, eu podia sair do Shopping pregada à noite de tanto ficar em pé, sorrir falso pra cliente e gastar meu latim à toa, mas pelo menos, não era um trabalho que absorvia o resto das minhas horas. Eu só lembrava dele durante as horas que eu ficava na loja. Aqui é oooutra história.

Dia desses eu sonhei que uma cliente daqui do escritório me ligava no meio da noite pra me perguntar quando é que a ação dela ia ser ajuizada. Outra vez acordei de madrugada dando um pulo na cama, tinha achado um argumento genial pra usar num processo. Depois, me peguei ligando pra estagiária tarde da noite pra lembrar uma coisa importante. Ou seja: não dá pra desligar, o cérebro roda nesse canal aqui o dia inteiro e às vezes até a noite inteira.

Claro, ainda não cheguei no ponto de ficar chata, mal humorada e imprestável assim que saio do trabalho. Afinal, isso equivale a morrer, porque significa abrir mão do resto da vida e se definir apenas pelo trabalho. Não, nem morta, santa. O dia todo eu dou um jeito de fazer o povo aqui rir (tanto que às vezes acho que eles desconfiam da minha sanidade. Ou acham que eu sou besta mesmo), tenho saído com os meus amigos, minha vida amorosa vai muito bem "e tals" (e dá-lhe piada interna!).

Enfim, eu to cansada. Hoje, só hoje, em particular hoje, eu to muito, muito cansada. Muita correria, muita pressão, muito raciocínio. E uma saudade que dói o dia inteiro sem parar, por mais que eu a ignore, ou a console dizendo que já vai passar. Tô no limite. Hoje. Amanhã eu tenho certeza que melhora. Aliás, eu tenho certeza que depois das 18:00 horas de hoje vai melhorar. Ainda mais que acabaram de me chamar pra tomar tequila hoje à noite.

Será que Meredith Grey ensinou, em algum momento, como curar esse tipo de ressaca?

*interfona e pergunta pra estagiária*

quinta-feira, março 27, 2008

Presença

A sua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça.

Ela abriu os olhos naquela manhã e deixou escapar um suspiro. Talvez porque o ruído da chuva somado à parca claridade convidasse mais a procurar uma nova posição sob o edredon verde oliva, do que a enfrentar o chuveiro quente e o salto alto. Talvez a noite tivesse sido curta pro cansaço acumulado ao longo da semana. Ou talvez o suspiro fosse resquício dos sonhos nebulosos e turbulentos que tinham embalado seu sono durante a noite. O suspiro tornou-se um grunhido quando, procurando coragem pra se levantar, puxou de lado a coberta e sentiu o choque da brisa fria matutina contra a pele morna e nua. Espreguiçou-se, lânguida, e pousou as mãos sobre os seios macios, num gesto pouco usual, mas que lhe pareceu natural e irrefreável. Era como se estivesse faltando algo ali. Como se até então houvessem dedos pousados sobre os mamilos escuros e sensíveis, pressionando, tateando, envolvendo. Admirada com a constatação, virou-se de lado, encolheu as pernas e abraçou a si mesma, ressentindo-se menos do frio, que da sensação de lacuna que a invadiu. De repente, teve a certeza de que a cama tinha estado ocupada por mais alguém até então, alguém que tinha acabado de se levantar, deixando nos lençóis o calor e o rastro da sua presença. Deslizou a mão direita pelos quadris percorrendo a pele morena vagarosamente enquanto tomava consciência do corpo inteiro. Toda a sua pele vibrava como se exalasse a impressão deixada por um longo abraço. Ainda podia sentir o peito largo comprimindo-se contra as costas, o braço forte ainda pesava na cintura e chegou mesmo a sentir a respiração quente junto ao pescoço. Inquieta, olhou em volta procurando a confirmação de que realmente estava sozinha, quando o sonho, até então indistinto, emergiu trazendo consigo imagens e sensações pungentes, que a fizeram retesar os músculos da pélvis e cerrar os olhos, gemendo fracamente. Rememorou os arquejos, a cadência, o desejo. A mordida na nuca, os dedos crispados sobre os quadris, os murmúrios roucos no ouvido. A respiração pesada, os rugidos que eram quase ganidos. A pressão, a urgência, a força a cada estocada, o prazer insuportável, um grito, o gozo. Com os olhos apertados, deixou-se arrebatar e deslizou a mão por entre as pernas, de onde escorria fogo líquido. Com movimentos frenéticos dos dedos tensos, dissolveu-se novamente, sacudindo os quadris em espasmos e miando baixinho. Abraçou o travesseiro enquanto o corpo serenava e ficou quieta, observando as sombras nas cortinas, dizendo a si mesma que era hora de se levantar. Pisou o chão frio e olhou-se no espelho, contemplando os cabelos escuros revoltos, os olhos intensos, os lábios avermelhados. E a sensação de dedos entrelaçados nos cabelos da nuca voltou, fazendo-a correr pro chuveiro incontinenti. Aquele quarto não era mais um lugar tranqüilo, a presença dele tinha tomado tudo. Maldito.



Lívia Santana.
06/03/2008

domingo, março 23, 2008

O cara

Outro dia conheci um homem que tem olhos que riem. Que tem resposta pra tudo e que diz as coisas mais absurdas com mais lógica e veemência do que qualquer um no mundo inteiro. Que é capaz de fazer elocubrações sobre o nada de fazer inveja ao próprio Jerry Seinfeld e de ligar assuntos desconexos uns aos outros sem fazer força. Que é dono da cara mais séria e compenetrada que existe, mesmo quando a nota de riso na voz é inequívoca. Que me surpreende o tempo todo e se deixa prever do jeito mais adorável possível.

Um sujeito que combina canalhice e sensibilidade em altas doses e consegue ser absurdamente transparente mesmo quando ostenta um sorriso cínico. Que não resiste a um desafio e se rasga de curiosidade com pequenas provocações. Que tem um bom humor fantástico e é mestre em rir de si mesmo. Que é racional, deliberado e metódico, o que não impede que seja impulsivo, passional e autêntico. Que liga no meio da tarde pra gritar comigo, docemente furioso.



Um homem que seduz e se deixa ser seduzido. Que é franco, divertido, companheiro. Que não é taxativo ou prepotente. Que só demonstra empáfia pra ser derrubada sob uma chuva de boas réplicas. Que sabe ser bobo como ninguém. Que tem a inteligência mais aguda que eu já conheci. Que é determinado e paciente. Que desperta orgulho e admiração. Que me faz querer ser melhor e realizar um monte de coisas.

Conheci um homem que se dedica, que não tem meios termos, que se entrega e se abre pra eu entrar. Um homem que baniu uma sombra e me mostrou que pouco não é pra mim. Que me fez rir de novo.

Um cara que foge à regra, que não gosta do comum. Que estimula, enriquece, emociona. Que inspira e fez com que eu conseguisse criar personagens de novo. Que aconchega e tem o melhor colo do mundo. Que é capaz de fazer rir enquanto as lágrimas correm. Que disse agora há pouco que vai me denunciar na delegacia de mulheres por maus tratos, porque não tenho deixado ele dormir.

Um homem que eu amo. E que, mesmo que não dê nada certo entre nós, já fez por mim a coisa mais importante que ele poderia ter feito: me devolveu a esperança e me mostrou que existe muito ainda pra eu viver, mesmo que o meu coração tenha se estilhaçado no passado.

Conheci um homem. A quem só tenho a agradecer.

quinta-feira, março 20, 2008

Câmbio e desligo

Adeus civilização e pessoas que nela se encontram. Queria eu poder dizer adeus a tudo o que está me entristecendo também. Largar as dúvidas e preocupações aqui e simplesmente fugir. Sair cedinho antes que elas acordem, jogar uma mochila nas costas e deixá-las pra trás.

To indo amanhã cedinho pro meio do mato. Incomunicável.
Sem telefone.
Sem televisão.
Sem internet.

E sem certeza nenhuma.

Em tempo: tenho certeza sim.
E eu também vou sentir saudades.

quarta-feira, março 19, 2008

Alguém joga uma corda??

Eu queria TANTO descobrir como fazer isso dar certo!!!! Estou tão cansada de ver meus sonhos e meus sentimentos irem por água abaixo por falta de jeito pra lidar com as coisas! Eu quero que dure! Preciso encontrar um jeito... não posso, não vou abrir mão de nada, que o mundo inteiro se dane!

Numa tabela de prioridades eu preciso considerar o que é mais ímpar, mais precioso, mais importante. E, segundo a minha estagiária, parar de me desesperar com a segunda feira, se o fim de semana (prolongado) nem chegou ainda.

Conseqüências. Decisões. Medos.
Sofreguidão. Ânsia. Agonia.

Porcaria. De santa essa porra dessa semana não tem NADA!!!!!

!@#$%¨&*()@!#$%¨&*

Ai, que raiva.

terça-feira, março 18, 2008

More Than a Feeling

Acabei de assistir a uma comédia romântica com a anãzinha loira da Reese Whiterspoon e o fofo do Mark Ruffalo, no original, Just Like Heaven (The Cure, amo essa música!), mal e porcamente traduzido para "E se Fosse Verdade?". Ok, novidades? Já consigo assistir a comédias românticas de novo, sem cortar os pulsos e sem quebrar a televisão de ódio. Uma grande melhora, né não? Por outro lado, me peguei pensando: você já teve a sensação de que estava sob um refletor, cercado de um monte de coisas irreais?

Quando alguém escreve um roteiro - ao menos todos os cinco que eu já comecei são assim - pensa cuidadosamente na apresentação dos personagens e no que eles vão dizer. Cada fala é pensada muitas vezes, de um jeito que, ao final, a história está cheia de gente brilhante, espirituosa, cativante, trágica, densa, marcante. Até parece que as pessoas são mesmo assim.

Ali, na atmosfera da história, é perfeito. Mesmo nos momentos mais dramáticos, em que tudo caminha pra dar errado, o mocinho sempre cai em si e volta atrás a tempo. Richard Gere encostando a limusine e subindo pela escada de incêndio da Julia Roberts com ramalhete de flores. Meg Ryan e Tom Hanks se encontrando no alto do Empire States. Adam Sandler tendo a paciência de conquistar a Drew Barrymore desmemoriada todo santo dia.

Tanta coisa bonitinha, bem arrumadinha, que faz a gente dizer "óun..." quando assiste. Mas basta subirem os créditos, tocar a música final e pronto, acabou a viagem. O papel das duas horas de filme foi cumprido: entretenimento. E a gente perdoa as pieguices, a forçada de barra neste e naquele ponto, o diálogo inverossímil nalgum ponto, o final malfeito. Não, retiro o que eu disse. Final malfeito a gente não perdoa não, que o digam Cameron Diaz, Jude Law, Kate Winslet e Jack Black, porque eu joguei tanta praga neles depois daquela porra de "O Amor não Tira Férias", que pelo menos um tratamentozinho de canal ou uma queda acentuada de cabelo aquela turma deve ter sofrido.

Mas voltando. A gente perdoa o que rolou no filme que não foi muito legal, se o conjunto convence. Eu só fico pensando é: e quando isso acontece fora da tela?

Você conhece alguém que tem as falas certas na hora certa? Do tipo que você jura que vai começar a tocar trilha sonora enquanto vocês andam pela rua conversando de alguma coisa adoravelmente prosaica? Que faz você olhar em volta de vez em quando pra conferir se o Sérgio Malandro ou a Sabrina Sato não estão te seguindo, prontos pra anunciar a pegadinha?

É, isso existe. E acredite, é muito legal. Só que me surpreendi pensando: em que ponto do filme estamos agora? Será que eu aperto o pause agora pra não correr o risco de acabar enquanto eu vou ali estourar a pipoca? Será que tem continuação ad eternum que nem o Jaws do Spielberg ou pelo menos é uma trilogiazinha a la Lord of The Rings? Será que eu acho o DVD pra comprar?

E, o mais importante: será que o enredo convence no final, mesmo com as bolas-fora?

Ok, ok, eu mesma fiz um post ali embaixo sobre querer coisas possíveis. Mas o que tem de absurdo em preferir Maggie Gyllenhaal e James Spader em vez de Brittany Murphy e Ashton Kutcher?

Ah, me dá uma folga. E deixa o meu tema ser "More Than a Feeling", vai. Eu mereço.

segunda-feira, março 17, 2008

Pagando dívidas

Carol, aqui vai:

Abrir na página 161 do livro mais próximo de você, e copiar a quinta frase.

"Foi o que Shadow fez" (livro "Deuses Americanos" do Neil Gaiman - que, a propósito, está esgotado pra todo lado que eu tento comprar. MERDA!)

Repasso para: nobody, people. Sou definitivamente uma pessoa magnânima. (isso sem falar que eu era a única loser que ninguém tinha indicado pra essa corrente ainda!...rs)

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Eric, agora nóis. Depois que você fez um post sobre um dinossauro de salgadinhos com cheiro de chulé, eu confesso que fiquei meio encabulada. Tipo, e se o meu dinossauro não feder? Serve? E se em vez de chulé ele feder formol que nem uns dinossauros do estilo da Dercy Gonçalves e do Sílvio Santos? Será que vale? Puxa vida, esse povo só me mete em encrenca.

Confesso que, a princípio, pensei em dizer que o meu dinossauro preferido era o Roy Hess, o melhor amigo do Dino (da Silva Sauro, capici?).

Roy Hess

Saca só. O cara era pobre, morava sozinho, namorava uma mulher pescoçuda (lembra da Mônica, a "separada" vizinha da Fran?) que era muita areia pro caminhãozinho dele, era derrubador de árvores, não tinha vida própria e ficava parasitando justo a do Dino que era um merda de camisa xadrez, tinha os bracinhos mais curtos que já se viu e nem punheta podia bater...E AINDA ASSIM ERA O CARA MAIS FELIZ DE TODOS OS TEMPOS! Um fulano que dizia bom dia efusivamente, mimava os filhos do amigo, babava pela namorada, era gentil e delicado com todo mundo e nem do Hitchfield, o chefe homicida, ele falava mal! Não é um fenômeno???

Mas aí eu resolvi que seria uma resposta muito poliana pro meu gosto. E me ocorreu a verdadeira eleita dessa corrente seríssima.

Uma mulher que dá duro, pega no pesado, faz parte da cultura pop brasileira, é um ícone da indústria fonográfica e do cinema nacional, é uma coroa (gasp) enxuta, que faz de tudo pra se manter na mídia, até protagonizar uma cena batizada pela Gabi de "penheta". Senhoras e senhores, meu dinossauro preferido é A GRETCHEN!

Trailler de "La Conga Sex"


Se você ainda não viu o filme pornô-romântico-erótico-educativo que ela lançou no final de 2006...não veja. Se já ficou ileso até agora, umas risadas NÃO VALEM o trauma, vai por mim. É o tipo do filme que só dá pra assistir numa sala cheia de membros da Blogagi, porque as piadas neutralizam um pouco o sofrimento.

Ficadica.

sábado, março 15, 2008

Reconsideração

É, eu sei, tenho umas correntes pra responder e eu prometo que faço isso já. Mas antes eu preciso dizer umas coisas que estão supitando pelos meus ouvidos.

Depois do meu último post, recebi um torpedo discordando da minha constatação e dizendo que as razões de inconformidade seriam protocoladas no prazo legal. Ok, você não entendeu nada? Normal. Ultimamente o que me faz rir se divide em duas coisas: piadas internas interníssimas e humor de advogado.

Certo, eu devo ter batido a cabeça.

Ainda assim, reformularei a minha última declaração, dando provimento parcial ao recurso de apelação. Eu não sou idiota. EU ESTOU. Idiota, encantada, deliciada.

Engraçado. Num momento assim me ocorrem tantas considerações. Sobre como eu odeio ser relegada a segundo plano. Sobre como as pessoas dão quase nada de si e esperam satisfazer assim mesmo. Sobre como abrir a porta quando batem nela pode fazer a diferença. Sobre como o conceito de certo e errado parece mutável e secundário em alguns momentos. Sobre como o que mais queremos surge dos lugares mais improváveis.

Ah, caramba. Que sopre a tempestade.

quarta-feira, março 12, 2008

Constatação

Eu sou uma idiota.

Memes

Seguinte, me indicaram pra duas correntes ao mesmo tempo. De um lado o Eric quer que eu fale de dinossauros. Do outro, a Carol quer que eu faça o lance da página tal do primeiro livro que estiver perto de mim.

O motivo deste post é dizer: senhores, devo, não nego, pago quando puder!!!

Não, mentira, pago hoje ainda, mais tarde, quando voltar pra casa, ok? O dia tá punk aqui no escritório, não dá tempo de nada.

Ah, e por falar em dívidas: Lilhoca, sua camiseta está saindo da prensa, ok? Não me execute!!!

Beijo na bunda, pessoas!!