domingo, março 11, 2007

Loosing my Religion

Muito antes de ela chegar a esta Terra seu povo já adorava os deuses. Durante muitos sóis eles entoaram cânticos e realizaram rituais envolvendo banhos em água gelada, oferendas de rosas vermelhas, sacrifícios de lágrimas e suor em nome daqueles que adoravam. Os deuses ficavam felizes e falavam com eles através de seus oráculos. O povo ouvia os conselhos e os seguia sem hesitar. E, ao contrário de muitos outros deuses que os precederam, estes não foram esquecidos ou perderam influência. Não. Estes deuses se tornaram cada vez mais fortes, arrebanhando cada vez mais seguidores, seus mandamentos fazendo cada vez mais prosélitos. Havia rituais iniciados ainda no escuro, antes mesmo de o sol dourar o horizonte e outros que começavam quando o astro se punha, arrastando-se noite adentro. Nunca era demais, nem mesmo suficiente.

Cresceu em meio à adoração e aos oráculos. Sempre acreditou que ali estava a verdade e que eram abençoados em conhecê-la, desfrutar de seus privilégios. Sempre viveu de acordo com a sabedoria de seu povo, fiel aos seus ensinamentos e à sua fé.

Ironicamente, jamais conseguiu se interessar pelos guerreiros do próprio povo e sempre que se enamorava, era do filho de outra raça e outra crença. No entanto, o comportamento dos anciãos quanto a isso jamais era taxativo - preferiam deixar a cargo dos oráculos a tarefa de solapar qualquer sentimento desaconselhável. E eles sempre o faziam, eram invejáveis na tarefa.

Então um dia, ao acordar, sentiu o coração cheio de uma sensação morna. A voz que lhe desejara bons sonhos na noite anterior ainda ecoava em seus ouvidos e ela passou os dias que seguiram sorrindo pra si mesma e pra nada específico. A sensação cresceu e ela desejou dedicar-se por inteiro ao sentimento. Foi quando os oráculos entraram em ação.

Disseram-lhe que era um erro, pois aquele que era contemplado por seu amor não nutria os mesmos sentimentos. Que se tratava apenas de atração física, superficial e falsa. Que não unisse a vida ao guerreiro do outro povo, eis que seria irremediavelmente infeliz.

Durante muitos dias ela chorou, inconsolável, dividida entre suas crenças e algo que gritava que aquilo não podia ser falso. E durante todo este tempo, os anciãos tentaram consolá-la e convencê-la de que os oráculos sempre tinham tido razão e que o mais lógico seria acatar-lhes as orientações.

Então houve a mudança. O brilho ingênuo que antes iluminava os olhos pisados de chorar, deu lugar a fria determinação. Ela reuniu os anciãos e anunciou sua partida. Não acreditava mais nos oráculos e estava decidida a fazer seu próprio caminho.

Não haveria mais rituais pra ela.

4 comentários:

outsider® disse...

li o início e o fim:

"Muito antes de ela chegar ... estava decidida a fazer seu próprio caminho"

pronto, agora só falta alguém me explicar o meio ¬¬

Magnus disse...

Bom.

Gabi disse...

Eu rezo por você, preta. E quando eu rezo, acontece.
*interna*
=)

Júlio disse...

Pô, mas nem um franguinho com farofa?
*ah, o negócio é ser infame, né?*