terça-feira, fevereiro 26, 2008

Programa de Índio

Preste a maior atenção do mundo nisso que eu vou dizer agora. É sério, talvez você lembre das minhas palavras mais cedo do que você pensa: nunca subestime o potencial destrutivo de um programa de índio. Por mais que você pense que ele já atingiu toda a sua plenitude, não se engane - sempre tem mais um pouquinho guardado. Pode e vai piorar.

Por exemplo. Existe pouca coisa pior pra se fazer do que comparecer a chás de panela e de bebê. Caso você não esteja ligando o nome à ocasião, chás de panela são aquelas festas tenebrosas em que uma feliz infeliz prestes a se casar reúne as amigas e as parentes - por que mulher se fode até nessas horas, hein? - em meio a utensilhos domésticos e vasilhas tuppeware embrulhados pra presente. A finalidade é ganhar de presente aquela miuçalha que quem vai se casar precisa pra montar uma casa e, eu suspeito fortemente, ver até que ponto as pessoas resistem sem morrer de tédio e de nojo. Sim, porque eu ainda não falei das brincadeiras idiotas, dos trotes, da gritaria feminina, da comilança, das sacanagens pronunciadas por matronas estranhas que aproveitam a ocasião pra soltar a franga e abanar a saia, aparentemente antegozando a lua de mel da futura noiva. Ou isso, ou já morrendo de rir da pegadinha: "Rá! Ninguém te avisou? Se fodeeeeeeu!".

Sacou a visão do inferno? Tenha a decência de se apiedar da próxima vez em que ouvir alguém querido do sexo feminino comentar que recebeu um convitinho colorido dizendo pra comprar uma bacia. Por mais que a vontade de rir seja maior, tenha pena. Afinal, você pode precisar de alguma coisa algum um dia, né? Sei lá, um rim ou um pedaço de um fígado. Essas coisas acontecem.

Os chás de bebê, por outro lado, são um pouco piores. Ah, duvida? Tsc. Ser incrédulo. Depois não diga que não avisei.

Chás de bebê têm tudo o que têm chás de panela, com a diferença que em vez de utensilhos domésticos, o que se empilha por todo lado são fraldas descartáveis. Centenas delas! Noturnas, com gel, sem gel, da Turma da Mônica, do Pernalonga, da Barbie. Barbie? Ok, exagerei, mas você entendeu. E se você acha que mulheres são barulhentas, some um trilhão de crianças em idades diversas a essas mulheres barulhentas. Imaginou? Não, acho que não vai dar nem pra chegar perto do horror da realidade.

Pensa assim, ó. Cada mulher adulta que chega na porra do chá de bebê está carregando um bebê a tiracolo, ou trazendo pela mão uma criança naquela idade de correr, gritar e rabiscar a parede. É impressionante! E um indício claro de que pessoas normais, com interesses variados NÃO VÃO a uma merda de ritual insano desses! E você também não iria, não fosse a possibilidade de banimento da manada que lhe ronda insistentemente. Um passo em falso e as feras cairão sobre você, arrancando a carne dos ossos antes mesmo do sangue esfriar. Então, fazer o que, né? Atarraxar um sorriso e tocar pra "festa" (cof cof).

Aí pronto, você está lá. De um lado, a grávida. Do outro, a que vai casar dali nove meses. E por todo lado, as crianças. Você se vê acossada contra uma parede e sente chegou o seu fim. Olha à sua volta e descobre que mais alguém está ali, pensando em cavar um túnel com a colher do bolo. A namorada magrela do seu primo. Droga, aquilo mal serve de consolo, uma pessoa com aquela circunferência - de esqueleto de laboratório - sequer vive no mesmo mundo que você, o que pode saber de compartilhar sofrimentos? Mas, espantosamente, ela geme uma imprecação parecida com as suas próprias e, com a chegada de uma prima dissidente ao bunker, vocês se tornam um trio acuado.

Logo vocês chegam à conclusão de que no convite de todas elas, menos no de vocês, estava escrito que só entrava quem trouxesse uma criança junto e que quanto mais barulho a criança fizesse, maior o pedaço de bolo que a convidada levaria pra casa. Controlando a custo a vontade de chutar criancinha mal educada, descobrem que a crueldade do evento supera todas as expectativas. Sua mãe, olhando meigamente pra dois bebês apostando corrida de gatinhas no chão, lhe diz: "Ah, Lívia! Tá passando da hora de você ter um nenenzinho também! Se esperar muito eu nem vou ter forças no braço pra tomar conta de neto!". Isso porque a desgraçada acabou de completar 45 anos, você pensa que devia pessoalmente cortar os braços dela fora. E sem falar no desânimo que dá ouvir uma coisa dessas e pensar: "Se eu nem consigo arrumar um namorado que não me largue seis meses depois ou que me faça ter vontade de matá-lo, COMO DIABOS eu deveria ter um filho, porra????". E imediatamente você começa a se imaginar entrando num banco de esperma aos quarenta anos e pedindo "um com QI alto pra viagem", antes que você morra sozinha sem ninguém que te ame, seja comida pelos cachorros e encontrada semi apodrecida no seu apartamento uma semana depois de ter sofrido um derrame no tapete da sala.

Mas a coisa é ainda pior. EU DISSE QUE SEMPRE PIORA! Sua prima dissidente conta que a mãe dela alegremente lascou essa há poucos minutos: "Ah, a Juliana não tá grávida não, tá gorda mesmo!". Você arregala os olhos, horrorizada: "O queeeeeeeeee???" É, tem mais essa. Cada filha de Deus do sexo feminino que tava ali, com exceção da namorada magrela do seu primo, estava gorda. Mas, como elas tinham parido, era como se merecessem o indulto automático. Vocês, as estéreis, é que tinham a obrigação de emagrecer ou, pelo menos, de suportar os comentários sobre o peso que não podiam ser feitos quanto às sagradas genitoras espalhadas placidamente entre as fraldas descartáveis.

Prestes a enlouquecer, você tira do bolso o celular, aperta uns botões aleatórios e acaba descobrindo - oh, glória!!! soem as trombetas! - que ele tem Texas Hold'em nos aplicativos!!!!!! E se deixa mergulhar de mansinho no seguro e confortável universo virtual, onde permanece durante umas duas horas, até notar que a bateria está acabando.

Ah, não, aí já é demais. Alucinada, você segura forte no braço da sua mãe e anuncia em tom de ameaça: NÓS...VAMOS...EMBORA...A G O R A. E olhando nos seus olhos, ela parece entender a gravidade da situação, porque passa a mão na bolsa rapidinho e vai saindo à francesa em direção ao carro.

Alguns quarteirões em silêncio e ela murmura timidamente: "Filha...eu tava brincando..."

E é quando você finalmente perde a fleuma de vez e pronuncia algo semelhante a "vá tomar naquele monossílabo tônico do corpo humano que raramente é exposto à luz do sol!".

Um comentário:

Márcia disse...

Lívia, amei. Sempre leio o seu blog, acho muito divertido e me identifico com várias coisas que você escreve. Mas esse texto sobre chá de bebê e de panela poderia ter sido escrito por mim, se eu tivesse capacidade para isso, claro. Sei exatamente do que você está falando, sou veterana nesses eventos. Eles só estão começando para você, quando chegar a época em que cada fim de semana tem um desses você enteder que o inferno existe. Beijos e saudades, Piu Piu.